Por dentro do que há de melhor para controlar um sangramento ativo

Texto originalmente publicado por Carlos Felipe dos Santos em 03/jul/24.
Disponível em https://medium.com/p/1369c85aa978
Tempo de leitura: 5 min.

É óbvio que ninguém gosta de guerras, afinal, elas trazem muita destruição. Curiosamente, porém, não se pode negar que os principais conflitos bélicos da história da humanidade trouxeram avanços, principalmente na medicina.

Guerras, apesar de ruins, promoveram avanços na medicina. Imagem: ThePixelman/Pixabay

Foi assim com o ultrassom, que surgiu a partir dos sonares (equipamentos de navegação usados por submarinos durante a Segunda Guerra Mundial); com as ambulâncias, desenvolvidas para transporte de soldados feridos durante a invasão de Napoleão a Itália, no final dos anos 1700; e, não menos importante, com as técnicas de controle de hemorragias, aprimoradas com os inúmeros materiais e dispositivos que foram desenvolvidos ao longo das guerras Iraque e do Afeganistão para salvar a vida dos soldados americanos feridos gravemente nesse período.

Logo abaixo há uma lista com parte destes equipamentos, contando com um breve resumo e um vídeo de demonstração. Parte deles já vem sendo incorporados há algum tempo no ambiente civil, tanto em serviços de atendimento pré hospitalar móvel quanto em kits de primeiros socorros para locais públicos ou de uso particular. Confira!


1 - Gazes hemostáticas

Lesões que formam cavidades precisam ser peenchidas com gaze. A fim de otimizar esse processo, foram desenvolvidas as gazes hemostáticas, as quais vêm impregnadas com agentes hemostáticos que, em contato com o sangue, podem promover a coagulação química ou mecânica. Abaixo, você confere o uso da ChitoSAM 100, uma gaze hemostática do tipo mucoadesiva.

2 - Grânulos hemostáticos com aplicador

Realizar o preenchimento de feridas em incisões profundas representam um grande desafio. Pensando nisso, fabricantes de gazes hemostáticas desenvolveram agentes hemostáticos em grânulos com aplicador, facilitando o preenchimento da ferida. No vídeo abaixo é possível conferir o uso em um modelo animal.

3 - Esponjas hemostáticas

Criadas em 2016 pela startup RevMedx, elas foram elaboradas a partir da celulose e revestidas com quitosana, vindo em uma seringa que pode ser introduzida em área juncionais e pescoço.

Aplicadas em ferimentos provocados por estilhaços e projéteis, as esponjas mudam de forma quando em contato com o sangue, exercendo pressão sobre o ferimento, contribuindo para o controle da hemorragia em menos de 20 segundos. Além disso, cada esponja absorve 3 ml de fluído.

Importante ressaltar que seu uso não deve ser por um período maior de 4 horas e está limitado à axila, virilha e pescoço, não sendo indicado para cavidade pleural, mediastino e abdome.

No vídeo abaixo é possível ver um exemplo da sua aplicação, bem como compreender o seu funcionamento.

4 - Bandagens de emergência

Após realizar o preenchimento de uma cavidade, um curitvo compressivo precisa ser realizado sobre o ferimento, mantendo a gaze devidamente fixada. Atadura comum pode ser utilizada, mas esta pode se movimentar com facilidade. Por isso, existem diversos modelos disponíveis no mercado que garantem correta pressão e fixação. No vídeo abaixo é possível conhecer a Bandagem Modular OLAES, desenvolvida pela TacMed Solutions, que vem embalada à vácuo contendo uma gaze dobrada em Z e um plástico que pode ser utilizado em evisceração, por exemplo, além de um dispositivo que, quando aplicado sobre o ferimento, auxilia na pressão, podendo ser usado também para curativo ocular.

5 - Torniquete de extremidades

Quando um sangramento de extremidade não for controlado com pressão direta, devemos partir para a próxima técnica, que é o uso de torniquetes.

Estudos realizados com militares em combate mostraram que, quando aplicado antes da vítima entrar em choque, a sobrevivência foi de 96%. Agora, quando aplicado depois da vítima entrar em choque, a taxa caiu drasticamente para apenas 4%. Ou seja: seu uso não deve ser retardado!

Existem vários produtos disponíveis comercialmente para uso e pelo menos três deles tiveram 100% de eficácia em ocluir o fluxo sanguíneo arterial distal: o torniquete CAT, da North American Rescue, LLC; o torniquete EMT, da Delfi Medical Innovations Inc; e o torniquete SOFT-T, da TacMed Solutions™.

No vídeo abaixo, vemos o exemplo da aplicação do torniquete CAT — Combat Application Tourniquet.

6 - Torniquete SWAT

O torniquete SWAT-T, ou STRETCH, WRAP AND TUCK, algo como Estique, Enrole e Dobre, foi desenvolvido para uso militar e civil, podendo ser aplicado em uma variedade de lesões, inclusive em cães. Além de ter função similar ao torniquete de extremidades, pode ser usado para realização de curativos compressivos. É feito de elastômero sem látex e possui formas geométricas que mudam o design quando corretamente aplicado.

No vídeo abaixo, produzido pela H&H Med Corp, fabricante do dispositivo, é possível conferir as suas múltiplas aplicações.

7 - Torniquetes juncionais

Torniquetes são ótimos para lesões exsanguinantes em braços e pernas. Mas e se essa lesão for em área juncional, com em axila ou virilha, onde o uso do torniquete de extremidades é ineficaz?

Pensando nisso, a SAM Medical desenvolveu o SAM Junctional Tourniquet, um equipamento que consiste, basicamente, uma cinta com um dispositivo que o socorrista infla na área atingida, criando pressão suficiente para colabar o vaso que irriga a área atingida, controlando o sangramento.

Veja no video abaixo uma simulação de uso.

8 - Estabilizadores de pelve

Somos orientados à, durante a avaliação de uma vítima de trauma, fazer pressão na crista ilíaca e, em caso de dor ou movimentação estranha, suspeitar de fratura. Esta manobra pode piorar a lesão, desfazer coágulos e aumentar o sangramento, que costuma ser grave nessa região.

Existem outros sinais sugestivos de fratura pélvica: dor mesmo sem palpação, edema, hematoma (pele roxa), deformidade e sinais de hipovolemia, como pressão baixa, confusão mental, saturação de oxigênio reduzida, etc. Além disso, devemos nos atentar à cinemática. Portanto, não comprima a pelve para suspeitar deste tipo de lesão.

️Para imobilizá-la corretamente, temos dispositivos como o SAM Pelvic Sling (e suas variações), da SAM Medical, e o T-POD, da Teleflex, sendo este último exibido no vídeo abaixo. Eles agem aproximando a pelve, contribuindo para a redução do lúmen dos vasos lesionados, aumentando a hemostasia.

9 - iTClamp

Alternativa aos torniquetes juncionais, o iT Clamp, desenvolvido pela Innovative Trauma Care Inc, é um pequeno dispositivo indicado para cortes no couro cabeludo, axila, virilha, e pescoço. Funciona selando as bordas da lesão, contribuindo para a hemostasia em ambiente pré hospitalar. Há estudos que indicam que sua aplicação é menos dolorosa do que o uso de torniquetes de extremidades.

️O iTClamp pode, também, ser usado em conjunto com agentes hemostáticos. No vídeo abaixo é possível ver a sua aplicação em laboratório em modelo suíno.

10 - REBOA

Quando uma vítima de trauma tem hemorragia interna, a prioridade é o rápido transporte para um centro especializado. Acontece que, a depender da distância do local da ocorrência até o hospital, pode ser tarde.

Pensando nisso, os médicos militares Dr. Todd Rasmussen e Dr. Jonathan L. Eliason criaram um dispositivo chamado REBOA — Resuscitative Endovascular Balloon Occlusion of the Aorta (algo como Oclusão Ressuscitativa por Balão Endovascular da Aorta, em português).

Chamado de torniquete interno, esse dispositivo, comercializado pela Prytime Medical Devices, Inc., é composto por um fino tubo com um pequeno balão em sua extremidade. Inserido a partir da artéria femoral, ele segue até a aorta, quando uma solução salina é injetada e infla o balão, impedindo, então, a passagem do sangue para a pelve e extremidades inferiores, controlando o sangramento e restabelecendo a perfusão para os pulmões, coração e cérebro.

No vídeo abaixo é possível conferir a sua aplicação em uma animação.

E aí, gostou desta série? Sentiu falta de algum material ou dispositivo? Entre em contato ou fique por dentro de novidades em http://www.emergencia.site